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segunda-feira, 29 de março de 2010

O Nascimento da Tragédia

O Nascimento da Tragédia,

ou Helenismo e Pessimismo



Esta é a primeira obra do fiilósofo mais polêmico da Pós-Modernidade, e talvez até, por que não, o mais polêmico da história. Filósofo que se autodenominou "o homem que nasceu póstumo", por ter sido incompreendido pelos seus contemporâneos. Obra de um então jovem professor de letras clássicas despertou polêmica pelo seu caráter pessoal e pela ousadia de sua abordagem: desafiava a concepção tradicional dos gregos como povo sereno e simples, e exaltava a ópera de Wagner como renovadora do espírito alemão, numa singular mistura de reconstrução histórica, intuição psicológica e militância estético-cultural. Nesta obra o filósofo oferece não só uma interpretação das tragédias gregas, mas da própria cultura grega e moderna, do nexo entre arte e conhecimento e da época moderna.


O autor começa por afirmar que o contínuo desenvolvimento da arte está diretamente ligado à duplicidade do apolíneo e dionisíaco. O apolíneo é relativo ao deus Apolo, apresentado como o deus do sonho, das formas, das regras, das medidas, dos limites individuais. O apolíneo é a aparência, a individualidade, o jogo das figuras bem delineadas; e o dionisíaco é apresentado como o gênio ou impulso do exagero, da fruição, da embriaguez extática, da libertação dos instintos. É o deus do vinho, da dança, da música e ao qual as representações de tragédias eram dedicadas.


O Mito trágico é uma representação simbólica ou imagética da sabedoria dionisíaca. O dionisíaco manifesta-se a si próprio por intermédio de processos apolíneos – estéticos, representação. Essas representações levavam o publico a uma espécie de horror e posteriormente os arrebatavam através do prazer que sentiam por meio dos fenômenos inconscientes de si mesmos representados nas peças.


A duplicidade destes impulsos resulta numa luta incessante e se intervem periódicas reconciliações. A arte apolínea é a arte do figurador plástico, da estética; e a não figurada da música é a dionisíaca. Segundo Nietzsche ambos os impulsos caminham juntos, na maioria das vezes em discórdia aberta e incitando-se mutuamente a produções sempre novas. Contraposição que deu origem através do ato metafísico da vontade, gerando a tragédia ática. Segundo o autor estes dois impulsos básicos da criação da arte tem origem na embriaguez (dionisíaco) e nas representações oníricas (apolíneo). De um lado o conceito Uno-primordial - o impulso básico e primordial comum a todos o indivíduos, pelo qual se universaliza e imortaliza a arte (dionisíaco); e por outro o princípio-individual - impulso individual que diferencia o indivíduo da universalidade, o ato subjetivo.(apolíneo).

É feito uma analise da importância da arte para o povo grego, que devido a consciência das lástimas da existência tinha necessidade da arte para suportar a vida, onde o espectador via a si mesmo nas representações. Acontecia aí o fenômeno da purificação chamado por Aristóteles de catarse. Segundo Nietzsche “O nascimento da tragédia” se deu de maneira inconsciente, ora fruto da embriaguez, ora dos sonhos, que se imortalizou devido à necessidade da arte que é indelével a todos seres humanos quando conscientes das lástimas da existência, que também de maneira inconsciente se purificavam ao contemplá-las.


A morte da tragédia se deu graças a Sócrates com seu racionalismo. Sócrates percebeu que as pessoas não tinham um conhecimento seguro, sendo ele o único a admitir a si mesmo que nada sabia e por isso o Oráculo de Delfos o denominou o homem mais sábio. Sócrates percebeu também que as pessoas gostavam da tragédia, mas não a entendiam, apenas a sentiam. Sócrates acreditava que através da razão, e somente da razão, se poderia chegar ao conhecimento seguro e que somente aquilo que fosse inteligível seria digno, nobre.


Surgiu na contemporaneidade de Sócrates as comédias áticas de Eurípedes, onde o impulso criador passa a ser consciente e o crítico dessa nova espécie de arte passa a ser o inconsciente, que apesar de tornar as peças inteligíveis, a fez perder o seu caráter purificador, deixou de ocorrer a catarse, criando um vazio enorme entre os espectadores com a morte da tragédia.


Com Sócrates surgiu a ciência, o racionalismo, do qual buscava entender e explicar o mundo e o homem. Com o desenvolvimento da ciência e da filosofia, esse racionalismo radical levou o homem ao niilismo, a negação total e pessimista da vida, num estágio de conhecimento avançado, do qual a própria razão se torna insuficiente para explicar o todo, mas é capaz de negar qualquer verdade, restando apenas o niilismo passivo e negativo.


Para Nietzsche a música, do seu até então amigo, Richard Wagner era uma renovação do espírito da música, uma espécie de música que se imortalizaria assim como Beethoven e Mozart. Para ele a música e o mito trágico era de igual maneira a expressão dionisíaca, que seria capaz de justificar o pior dos mundos e tornar a vida possível, cobrindo a verdadeira essência da vida com um véu de beleza. Segundo ele a verdadeira essência da vida é lastimável e toda projeção futura, não passa de ilusão espraiada na busca dos prazeres ou na atenuação das feridas da existência, da qual só podemos afirmar a vida com as ilusões. Ele defendia a idéia de que se deveria buscar o renascimento da tragédia, de uma arte superior da qual poderíamos suportar vida, e assim religar a ciência e a filosofia à afirmação da vida terrena. Assim se manteria a ciência e a filosofia trilhando o caminho do conhecimento, da verdade, mas sem negar a vida. Concluindo que, para ele, temos a arte para não morrer com a verdade, onde a vida sem a música seria um erro.



Dados bibliográficos:

NIETZSCHE, Friedrich, O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo - 1872. Notas, Tradução e Posfácio, Jacó Guinsburg, 1992.1º reimpressão, Editora Schwarcz - Ltda.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken, 15 de Outubro de 1844 — Weimar, 25 de Agosto de 1900), formado em Filologia pela Universidade de Leipzig, escritor e crítico da filosofia.


(Resenha >> Alan Silva)

3 comentários:

zaratustra disse...

Aquilo que mais faz falta ao cristianismo (tão atacado pelo autor nas suas obras que se seguem a essa), bem como a toda religião, é justamente o encarar preliminarmente a existência nua e crua, sem o otimismo do Bem regendo a tudo, antes de passar a teorização da Divindade, ao dualismo entre Deus e Satã e a outras coisas que deveriam ser fruto mais de uma experiência empírica do que de um dogma ou especulações doutrinário-teológicas.

Fernando Cesar Ferroni de Freitas disse...

O Nascimento da Tragédia.

Nascimento, principio... é o momento em que se entra em contato com o mundo, é o começo.
“é brutal o nascimento.”
Imagine após nove meses, protegido de tudo e de todos, de repente você é retirado desse “mundo perfeito”, expelido...agarrado , o primeiro contato com o mundo, o toque das mãos enormes de uma pessoa, luz, o som ,...o rompimento do cordão umbilical, o elo entre você e seu "mundo perfeito" de carinho, proteção, amor,... a tragédia, você é desligado do seu criador.
O vazio existencial do ser humano pode ser que tenha tido origem ali, naquele momento, e deixa cicatrizes que vão o acompanhar por toda sua vida.
O nascimento é o inicio da tragédia, porque a vida é trágica, e você faz parte disso agora, e nem se quer perguntaram se você queria ou não. Um ininterrupto e constante processo de acontecimentos, assimilação, adaptação, ação, acomodação... que transcorre por toda vida, o objetivo? Buscar prazer, equilíbrio, plena satisfação no mundo em que você foi inserido.
Fazer parte desta “Divina Comédia” não é opcional.
E tão angustiante é saber que mesmo ininterrupto, e constante, a busca pelo equilíbrio, o prazer, a plena satisfação, nunca será atingido.
“Saúde é o pleno bem estar físico e mental.”
Mas quem conseguiu atingir este plano antes que a morte o levasse, sendo assim, a tragédia é viver sabendo que o tempo, o devir....é mais rápido do que se pode imaginar, não haverá tempo para contemplar a plena satisfação.
Através do nascimento...”o nascimento da tragédia”, inserido na comédia ....” A divina comedia” que é vivida no palco do teatro da vida, onde todos são atores que interpretam e buscam o tempo todo por algo que preencha o vazio...”vazio existencial”, deixado talvez... pelo rompimento do cordão umbilical.
E tudo começa pelo desejo do “ego” de alguém que pensa no devir... o devir, continuidade da vida , do mundo.
Assimilar, adaptar, agir, acomodar....até incomodar, e recomeçar, tudo de novo....
Sem a opção de fazer parte ou não deste mundo, seja bem vindo a “Divina Comédia”, é aqui mesmo o inferno, purgatório e paraíso, o palco da vida.
Na platéia apenas duas celebridades.
Deus e o Diabo.

Fernando Cesar

Lêda Maira disse...

Amei...a verdade mais que clara. A verdade feliz e trágica de um nascer, que se explica e ao mesmo tempo se esconde, por entre os veios do sentir-se para que.
Amei... Se me permitir voltarei.