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domingo, 22 de agosto de 2010

O Existencialismo é um Humanismo


O existencialismo é um Humanismo é um ensaio escrito pelo filósofo francês Jean Paul Sartre (1905 – 1980), derivado de uma conferência feita por ele em Paris, em 1946, para explicar sua doutrina e também defendê-la de algumas acusações..

O existencialismo era acusado incitar pessoas a permanecerem no quietismo de desespero; por acentuarem a infâmia humana, mostrando em tudo o sórdido, o equívoco, o viscoso e por descurar certo número de belezas, o lado luminoso da natureza humana; por não atender à solidariedade humana, por trancar o homem entre quatro paredes e, por fim, a crítica cristã pelo existencialismo negar a realidade divina, suprimindo Deus e os valores dele derivados, restando a gratuidade, podendo assim cada qual fazer o que lhe apetecer.

Sartre afirma que o existencialismo é uma doutrina que torna a vida humana possível e que, por outro lado, declara que toda a verdade e toda a ação implicam um meio e uma subjetividade humana. Há duas espécies de existencialistas, aqueles que se declaram cristãos e, por outro lado, aqueles que se declaram ateus, que tem em comum o princípio que, como diria o própria Sartre, “a existência precede a essência, ou, se quiser,  que temos de partir da própria subjetividade.” O que deve se entender por isso, é que não somos a priori um projeto pensado, mas que somos apenas a posteriori, isso quer dizer, que primeiro existimos e depois definimos nossa essência. Porém Sartre critica o existencialismo cristão, já que a partir do momento que concebemos um Deus criador, esse Deus identificamo-lo quase sempre com um artífice superior e se admitirmos que a vontade segue mais ou menos uma intenção, uma inteligência, Deus quando cria sabe perfeitamente o que cria, o que torna impossível que, neste caso, a essência preceda a existência. Por outro lado havia o ateísmo dos filósofos do século XVIII, que mesmo suprimindo a noção de Deus, continua com a concepção de que a essência precede a existência a partir do momento que concebe a idéia de uma natureza humana. Nas palavras do Sartre:


“O existencialismo ateu, que eu represento, é mais coerente. Declara ele que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem ou, como diz Heidegger, a realidade humana. Que significará aqui o dizer-se que a existência precede a essência? Significa que o homem primeiro existe, se descobre, surge no mundo; e que só depois se define. O homem, tal como o concebe o existencialista, se não é definível, é porque primeira não é nada. Só depois será alguma coisa e tal como a si próprio se fizer. Assim, não há natureza humana, visto que não há Deus para a conceber. O homem é, não apenas como se concebe, mas como ele quer que seja, como ele se concebe depois da existência, como ele se deseja após este impulso para a existência; o homem não é mais que o que ele faz.”


Esse é o primeiro princípio do existencialismo, o que é chamado de subjetividade, que sempre deixa uma opção de escolha e escolhendo o homem se escolhe:


“O homem primeiro existe, ou seja, que o homem, antes de mais anda, é o que se lança para um futuro, e o que é consciente de se projetar no futuro. O homem é, antes de mais nada, um projeto que se vive subjetivamente, em vez de ser um creme, qualquer coisa podre ou uma couve-flor; nada existe anteriormente a este projeto; nada há no céu inteligível, o homem será antes mais o que tiver projetado ser. Não o que ele quiser. Porque o que entendemos vulgarmente por querer é uma decisão consciente, e que, para a maior parte de nós, é posterior á aquilo que ele próprio se fez. Posso querer aderir a um partido, escrever um livro, casar-me; tudo isso não é mais do que a manifestação duma escolha mais original, mais espontânea do que o que se chama vontade. Mas se verdadeiramente a existência precede a essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência.”


Nesse sentido Sartre afirma que o homem não é apenas restritamente responsável pela sua individualidade, mas que é responsável por todos os homens. A subjetividade tem dois sentidos, por um lado quer dizer, escolha do sujeito individual; e por outro, é a impossibilidade de superar a subjetividade humana, e é esse segundo que é o sentido profundo do existencialismo. Quando diz-se que o homem escolhe a si próprio, nessa escolha também escolhe ele todos os homens. Com efeito, não há dos nossos atos um sequer que, ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher isto ou aquilo é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos. Assim a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda a humanidade. Toda essa responsabilidade gera angústias, desespero, abandono, o homem é angústia a partir do momento que se descobre como Ser no mundo, responsável por si mesmo e ao mesmo tempo responsável por toda humanidade, já que se escolhendo escolhe para toda humanidade. Isso não significa que todo ser viva submerso em angústias, justamente porque acreditam que ao agirem só se implicam nisso a si próprios, e se justifica qualquer atitude na justificativa de que “nem todo mundo age assim”, uma atitude de má fé, quando o que está em jogo é justamente se todo mundo agisse assim. O fato de mentir de tal maneira implica que esse alguém não está à vontade com a sua própria consciência e o ato de mentir implica novamente num valor universal atribuído pela escolha. Mas quem me deu o direito de impor minhas concepções, meus valores a toda humanidade? Terei eu o direito de agir de tal modo que a humanidade se regula pelos meus atos? Isso é angústia, a responsabilidade não só por mim. Para Sartre a angústia não leva a inatividade, pelo contrário, essa angústia é a própria condição da ação, que se orienta pela pluralidade de possibilidades; e quando escolhem uma opção se dão conta de que ela só tem valor por ter sido escolhida. 

De acordo o pensamento de Dostoievski - “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”, -  o homem está abandonado, já que não encontra em si e nem fora si, uma possibilidade que se apegue. Estamos sós e sem desculpas, porém se nossa existência precede a essência, isso nos torna inteiramente responsáveis por nós mesmos e pela humanidade. O existencialista nunca irá utilizar um impulso, uma paixão como desculpa para justificar sua atitude, pensa-se que ele é responsável por sua paixão; e jamais pensará que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que o há de orientar; porque pensa se que o homem irá interpretar tal sinal como quiser. A doutrina existencialista afirma que só há realidade na ação, o oposto ao quietismo:


“O homem não é senão o seu projeto, só existe na medida em que se realiza, não é, portanto, nada mais do que o conjunto dos seus atos, nada mais do que a sua vida.”


Assim sendo o homem só é na medida em que se realiza, na total responsabilidade de si mesmo, se é herói ou covarde, gênio ou medíocre, este é inteiramente responsável a medida que sua essência é posterior a existência. Se o indivíduo escolhe deixar-se ser levado, ser levado é uma escolha. Contrário aos críticos que afirmam que o existencialismo é uma doutrina pessimista, defende Sartre que é justamente o contrário, visto que o destino dos homens está em suas próprias mãos. 

O ponto de partida do existencialismo é subjetividade do indivíduo, justamente por ser uma doutrina baseada na verdade, porém realista, contrária a teorias utópicas, bonitas, baseada em esperanças, mas sem fundamentos reais. Não há outra verdade senão está: penso, logo existo; é aí que se atinge a si próprio a verdade absoluta da consciência. Toda teoria que considera o homem fora deste momento, não passa de uma teoria que suprime a verdade. E através do cogito, não descobrimos somente a nós próprios, mas descobrimos também aos outros. Só podemos nos descobrir em face do outro e o outro é tão certo para nós como nós mesmos; e assim descobrimos que o outro é a condição da nossa existência. Dá-se conta de que não pode ser nada, salvo se os outros o reconhecem como tal, ou seja, para obter uma verdade qualquer sobre mim é necessário que eu passe pelo outro. Nestas condições, afirma Sartre, que a descoberta da minha intimidade descobre-me ao mesmo tempo o outro como uma liberdade posta em face de mim, que nada pensa, e nada quer senão a favor ou contra mim. Isso é chamado de intersubjetividade, é neste mundo que o homem decide sobre o que ele é e o que são os outros.

O existencialismo é um humanismo, afirma Sartre, pelo simples fato de que o homem está constantemente fora de si mesmo, é projetando-se e perdendo-se fora de si que ele faz existir o homem e, por outro lado, é perseguindo fins transcendentes que ele pode existir. Não havendo outro universo senão o universo humano, o universo da subjetividade, existindo, o homem permite que o outro exista, uma co-dependência.  E é esta condição transcendente que estimula o homem e faz com que este não esteja fechado em si mesmo, mas presente sempre num universo humano, chamado de universo existencialista. Humanismo, porque não há outro legislador além dele próprio, e que é no abandono que ele decidirá de si, mas voltando sempre para fora de si, vivendo o mundo dos meios, porém buscando fora de si um fim.


 Alan Teixeira

Referência bibliográfica:
O Exeistencialismo é um Humanismo - Jean Paul Satre, 1946.

2 comentários:

Guilherme Cunha disse...

aqui também tem um artigo relacionado ao "o Existencialismo É Um Humanismo" da prof. Maria Ivanilda Silva que fala sobre o existencialismo ateu.Vale a pena ler.Aí segue o link: http://tinyurl.com/338d5vf

Rodrigo Viana Peixoto disse...

Não concordo com tudo que Sartre fala, porem acho muito gostoso estudar esse tipo de leitura, só temos que tomar cuidado em saber utilizar nosso senso critico antes de afirmar algo.