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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Homo Sapiens 1900 - Peter Cohen


Homo Sapiens 1900 é um documentário do sueco Peter Cohen, feito a partir de arquivos históricos, incluindo fotos e filmes, que discorre sobre a Eugenia e sua aplicação ideológica e científica no século XX.

O termo “eugenia” foi cunhado pelo inglês Francis Galton em 1883, que significa “bem nascido” e foi definida por ele como o “estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”. Galton é fortemente influenciado pela obra A Origem das Espécies, do seu primo Charles Darwin. Galton propôs a “seleção artificial”, que seria o controle sobre as “forças cegas da natureza” da “seleção natural” para melhoramento da espécie humana conforme seus ideais. Tendo em vista que a concepção de homem da época o via em constante degeneração, longe dos ideais mentais e físicos cultivados pela intelectualidade e pelas artes plásticas, inclusive a antiga grega. Diz Peter Cohen:

“A imagem do homem revela o que o distingue dos outros seres: sua habilidade de observar a si próprio. É a sina do homem que ele não só se contenta com o que vê, mas se aborrece com suas próprias imperfeições físicas e mentais.” (...)

“Arte: o produto sublime da autocontemplação. A imagem clássica do homem em busca da beleza e harmonia, longe da impassível realidade. O desespero do homem em face da sua própria inadequação sua incapacidade de conviver com a imagem que ele próprio criou levam nos a essa impotência.”

 (Capela Sistina - Michelangelo)

A Eugenia obteve aceitação esmagadora dos cientistas da época, dividida em “Eugenia Positiva” e “Eugenia Negativa” e aceita pelas duas principais correntes de pensamento da época, Lamarckistas e Mendelistas. A “Eugenia Positiva” consistia na reprodução de casais seletivos, com as características ideais, na crença de que com a soma das características do casal se obteria ao longo das gerações a melhoria da raça. A “Eugenia Negativa” consistia no impedimento da reprodução de indivíduos considerados “não-aptos” ou “degenerados”, evitando assim o empobrecimento genético da raça como um todo. Os Lamarckistas acreditavam que as características adquiridas eram transmitidas para os descendentes alimentando a esperança de criar um “novo homem”. Os Mendelistas acreditavam que apenas as características herdadas eram transmitidas aos descendentes através da hereditariedade, que posteriormente foi comprovada.

Ao contrário do que se pensa a Eugenia é de origem inglesa e foi fortemente aceita pela maioria da Europa, URSS, EUA, e outros paises. Os Estados Unidos foram pioneiros na aplicação prática da Eugenia, sendo os criadores da Eugenia Negativa e o primeiro a criar leis proibindo a reprodução dos até então considerados “degenerados”. Em seguida Suécia adotou um sistema de lei similar, proibindo a reprodução de cerca de 8 mil pessoas consideradas “degeneradas” e foi na Alemanha Nazista que a Eugenia Negativa atingiu o ápice do horror na esterilização a força de 400 mil e eliminação de 100 mil alemães considerados inaptos, além do ódio aos judeus que levou ao genocídio da até então raça considerada inferior.

Enquanto isso diversos testes mentais são elaborados por cientistas na tentativa de medir a inteligência e diversas competições são feitas nos Estados Unidos e Suécia, premiando aqueles que se sobressaíssem.

No ano de 1927, o geneticista Alexander Serebrovski tentou impedir o avanço do Lamarckismo num artigo científico que descrevia a descoberta de Herman Muller que o Raio X causa mutações genéticas. De acordo Serebrovski essa descoberta demonstrava a falsidade da teoria Lamarckista. Porém Muller continua obcecado pela Eugenia e tenta dar continuidade as pesquisas a favor da Eugenia na URSS, que foi o pioneiro na proibição da Eugenia. O que seria o sonho do fascismo nazista, era o pesadelo da União Soviética e do comunismo. Muller se dirige diretamente a Stalin com a proposta de criação do “novo homem socialista”. Escreve Muller:

 “Caro camarada Stalin. Como um cientista confiante nos últimos triunfos bolchevistas em todas as esferas possíveis venho a você com um assunto de vital importância. Trata-se nada menos que o controle consciente da evolução biológica humana que é o controle do material hereditário, a base da vida”.

Muller condenava a doutrina da pureza racial nazista e afirmava que a eugenia só poderia ser produto do socialismo e acreditava que dentro de poucas gerações poderia se elevar a massa a condição de gênio. Porém para Stalin genética, eugenia e fascismo são considerados uma coisa só e é dada voz de prisão a Muller, que foge da URSS.

Em 1942 Estados Unidos estão em guerra com Alemanha e movimento eugênico entra em retração. Isso não por causa somente do genocídio nazista, mas por causa das descobertas da genética que mostram que Eugenia não tem validade cientifica. Em 1945 acaba a segunda guerra mundial com a derrota da Alemanha e do Eixo. Com isso surge a Organização das Nações Unidas e criação dos Direitos Humanos. A partir disso a eugenia perde força e são discutidas questões éticas de sua aplicação, sendo extinguida em todo o mundo.

Peter Cohen encerra o documentário com as seguintes palavras:

“Sob as ruas da cidade, os cemitérios da civilização. Os restos biológicos da hereditariedade. ‘Oh, essas novas ciências’ escreve Emile Zola há cem anos atrás.‘Essas novas ciências que ainda falam a linguagem das hipóteses e que ainda não se libertaram do poder da imaginação. Elas tem mais haver com os poetas do que com os cientistas. Que formidável afresco fica para não ser pintado que colossal comédia e tragédia humana não foi escrita! O material de que cada questão da hereditariedade nos dá parece infinito.’”

(...)“O homem criou uma civilização que o isola da natureza e o deixa em um conflito entre o progresso e a saudade do passado. A civilização é guiada pelo conceito do eterno progresso que pode sempre abrir novas portas.”



O documentário possui uma retórica impecável e apesar de ser um conteúdo um tanto “pesado” e dramático, sua estruturação é feita com argumentações intermitentes, seguida de uma suave música, permitindo assim que o espectador “respire” e possa digerir bem as informações. Porém na argumentação o autor ignora uma série de críticas de antropólogos como Alfred Kroeber, Franz Boas, Levi-Strauss que demonstraram a inexistência de raças e que a evolução humana é influenciada mais pela “seleção cultural” do que pela seleção natural.¹ Mesmo assim é um documentário excelente e imprescindível para melhor entendimento da história do século XX que foi marcado por diversos conflitos e escrita com sangue humano. É preciso conhecer o passado para entender o presente e para construir o futuro sem cometer os mesmos erros do passado.

"Quem não sabe prestar contas de três milênios
Permanece nas trevas ignorante,
E vive o dia que passa."
                 
                                (Goethe)

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Referencias Bibliográficas:

Homo Sapiens 1900 – Peter Cohen (1998).
Cultura: um conceito antropológico – Roque Laraia (1986).

Nota:
1 Cultura: um conceito antropológico – Roque Laraia (1986)

4 comentários:

Richard Mathenhauer disse...

Curioso pensar que os defensores da Eugenia deveriam se considerar tão especiais para que eles próprios não fossem segredados.

Muito bom seu texto.

Com admiração,

Alan Silva disse...

Bem observado caro Richard. É semelhante à aquela velha história "todos iguais, mas uns mais iguais que os outros".

Deixe o link do seu blog na próxima visita...

Abraço

Paulo Tamburro disse...

ALAN,

muitissimo bom seu texto.

Erudição sem ser pernóstico e sabedoria sem ferir com preconceitos.

Parabéns.

Meu negócio é humor e se quiser me dar a honra da vista, estaremos por lá.

Um abração carioca.

brunabora disse...

Baixar o Documentário - Homo Sapiens 1900 - http://goo.gl/odzGG