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sexta-feira, 20 de maio de 2011

O problema da filosofia

Jacey Yerka
O problema da filosofia é que nem sempre a realidade se apresenta conforme nossa percepção é lógica são capazes de entender, por isso estamos sempre dispostos a distorcer a realidade para justificar a nossa lógica e tapar os buracos da razão. Por isso se faz mais do que necessário a experimentação na produção de conhecimento. E ainda assim, segundo Thomas Kuhn, os mesmos métodos utilizados para produzir ciência, podem produzir mitos e ainda segundo Levi-Strauss, a lógica utilizada na produção de mitos das tribos mais isoladas é a mesma que produz ciência no mundo globalizado. 

Portanto, o 'problema da filosofia' é um problema epistemológico ainda sem solução. E quem, hoje em dia, ainda possui certezas?

domingo, 8 de maio de 2011

Ceticismo e Ética

Edvard Munch
"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras."
 (Friedrich Nietzsche)

O ceticismo e a crítica racional, numa época de segregação de valores e incertezas, é imprescindível para nos manter distantes e, se preciso, combater doutrinas e ideologias que tem como fim apenas a alienação, exploração e defesa de interesses individuais, que podem levar a massacres, genocídios e demais atos irracionais que se repetiram ao longo da história da humanidade e ainda acontecem. Liberdade de pensamento nada tem a ver com o individualismo, mas sim uma preocupação com a ética e a segurança dos caminhos que tomamos ao longa da vida. 

Com uma vasta diversidade de crenças antagônicas, incompatíveis e injustificáveis racionalmente, que tem como objetivo guiar a ação do homem em sua existência, ser um criador de valores, com base numa ética utilitarista, que tem como fim a democracia e o respeito para com as diferenças é, ao meu ver, o único meio de escapar dos erros das doutrinas religiosas e ideológicas e ao mesmo tempo escapar da inatividade fruto desse confronto niilista incontornável e inextirpável, para um caminho mais seguro.


"Não há fatos eternos, como não há verdades absolutas." (Friedrich Nietzsche)

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dialética Interior

Angel Estevez
Todo pensamento é acompanhado por um sentimento, este por sua vez é o produto das percepções individuais e este último é resultado do seu pensamento e sistema sensório. Temos aí uma dialética interior, que elimina qualquer possibilidade de causalidade, de um sistema linear, qualquer espécie de estruturalismo ou mecanicismo.   O indivíduo é fragmentado como um rizoma, diz Deleuze, ao contrário do que pensava Freud, não temos uma raiz central, no caso a sexualidade. Somos um todo e nada mais, o produto das contradições das relações interiores e exteriores. Somos ao mesmo tempo a nossa própria sensação e uma coisa externa, afinal nos percebemos como Seres separados de todo o resto. No universo exato e frio dos números a causalidade é perfeitamente possível, mas inviável quando se trata do Ser, que é apenas aquilo que faz com o mundo seja e ao mesmo se faz frente ao espelho do Outro e do Mundo. 

(Alan Silva)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Ciência e Ceticismo

Norman Parker
Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar podemos conseguir em outro lugar.

(Sigmund Freud)

 Ciência é a doutrina sistemática de obtenção de conhecimento e seu  motor é a dúvida. Sem dúvidas, não há perguntas, sem ceticismo qualquer inverdade se torna uma verdade, sem critérios, sem métodos, guiada apenas pela nossa ingenuidade. A verdade é um quebra cabeças, montá-lo é impossível. Impossível é apenas aquilo que ainda não conseguimos fazer. Algumas dessas peças podem ser confortantes, outras desoladoras.

Mitos são tomados por verdades, considerando apenas a sua utilidade prática de consolo existencial - um legítimo tapa buracos metafísico. Não considero que essa metafísica seja irreal, considero  apenas que não é seguro e incongoscível até mesmo para especular-mos, por isso a ciência concentra-se apenas no que é 'tangível' no universo humano. Quantas vezes já não nos agarramos a mais irracional das ilusões, das esperanças, para justificar qualquer fatalidade, para servir de consolo para qualquer desgraça e depois percebemos o engano? Se o conhecimento não for validado por um legítimo e rigoroso método científico, estaremos sempre fadados ao erro.

Por outro lado, a descrença, o ceticismo existe em abundancia. Não o ceticismo científico, o pior dos ceticismos - a descrença nos valores éticos, na utilidade prática da atitude e na ação em prol da ordem, do Cosmos. A descrença no que realmente tem uma utilidade prática para a ordem, para progresso, para o bem de todos. Esta sem dúvida é a pior das crenças, ou melhor, a descrença.

Se por uma lado não existe ciência sem dúvida,  por outro não existe mudança sem atitude. O ainda não descoberto é possível, considerando as possbilidades com segurança e responsabilidade. O ainda não construído é possível, o melhor dos mundos, só é preciso construí-lo, mas depende inteiramente de nós, apenas nós.

domingo, 28 de novembro de 2010

Citações fora de contexto

Edward Hopper
Freqüentemente encontramos por aí citações de importantes pensadores, citações polêmicas que fora de contexto podem tomar um significado totalmente deturpado. É um caso freqüente o filósofo genealogista Friedrich Nietzsche com sua vasta é difícil obra que exige muito mais do que uma simples leitura, mas como o próprio dizia é preciso aprender a arte de ruminar seus escritos para entende-los. Assim como ele, é todo filósofo, uso de linguagem técnica, na forma culta, metáforas e no caso do Nietzsche até a forma poética. 

A mulher foi o segundo erro de Deus. (Nietzsche)
A princípio parece uma preconceituosa frase sem sentido e sem fundamento, assim como a célebre "Deus está morto" (Vide O Impacto de Nietzsche no século XX e Nietzsche e Nazismo), que assim como a primeira é mal interpretada na maioria das vezes. Para se entender é preciso analisá-la em seu contexto que segue abaixo. É preciso tomar cuidado antes de citar qualquer pensador para não se comenter o equívoco de mal entende-lo, quando muitas vezes, esses velhos pensadores, querem dizer no contexto exatamente o contrário do que a frase isolada diz.

XLVIII

O velho Deus, todo “espírito”, todo grão−padre, todo perfeição, passeia pelo seu jardim: está entediado e tentando matar tempo. Contra o enfado até os Deuses lutam em vão(1). O que ele faz? Cria o homem – o homem é divertido... Mas então percebe que o homem também está entediado. A piedade de Deus para a única forma da aflição presente em todos os paraísos desconhece limites: então em seguida criou outros animais. Primeiro erro de Deus: para o homem esses animais não representavam diversão – ele buscava dominá−los; não queria ser um “animal”. – Então Deus criou a mulher. Com isso erradicou enfado – e muitas outras coisas também! A mulher foi o segundo erro de Deus. (o grifo é meu) – “A mulher, por natureza, é uma serpente: Eva” – todo padre sabe disso; “da mulher vem todo o mal do mundo” – todo padre sabe disso também. Logo, igualmente cabe a ela a culpa pela ciência... Foi devido à mulher que o homem provou da árvore do conhecimento. – Que sucedeu? O velho Deus foi acometido por um pavor mortal. O próprio homem havia sido seu maior erro; criou para si um rival; a ciência torna os homens divinos – tudo se arruína para padres e deuses quando o homem torna−se científico! – Moral: a ciência é proibida per se; somente ela é proibida. A ciência é o primeiro dos pecados, o germe de todos os pecados, o pecado original. Toda a moral é apenas isto: “Tu não conhecerás” – o resto deduz−se disso. – O pavor de Deus, entretanto, não o impediu de ser astuto. Como se proteger contra a ciência? Por longo tempo esse foi o problema capital. Resposta: expulsando o homem do paraíso! A felicidade e a ociosidade evocam o pensar – e todos pensamentos são maus pensamentos! – O homem não deve pensar. – Então o “padre” inventa a angústia, a morte, os perigos mortais do parto, toda a espécie de misérias, a decrepitude e, acima de tudo, a enfermidade – nada senão armas para alimentar a guerra contra a ciência! Os problemas não permitem que o homem pense... Apesar disso – que terrível! – o edifício do conhecimento começa a elevar−se, invadindo os céus, obscurecendo os Deuses – que fazer? – O velho Deus inventa a guerra; separa os povos; faz com que se destruam uns aos outros (– os padres sempre necessitaram de guerras...). Guerra – entre outras coisas, um grande estorvo à ciência! – Inacreditável! O conhecimento, a emancipação do domínio sacerdotal prosperam apesar da guerra! – Então o velho Deus chega à sua resolução final: “O homem tornou−se científico – não existe outra solução: ele precisa ser afogado”...

1 – Paráfrase de Schiller, “Contra a estupidez até os Deuses lutam em vão”. (H. L. Mencken)

(Friedrich Nietzsche, O Anticristo, XLVIII)

domingo, 21 de novembro de 2010

Globalização

Willian Ferreira
Com o neo-liberalismo econômico pós Guerra Fria, se entregou ao poder econômico as rédeas das nações, o mundo se unificou, se interligou, se globalizou e fronteiras e culturas estão por desaparecer. O que antes era domínio do estado passou a ser a  privado: saúde, educação, saneamento básico... só restou segurança e coerção. O produto e o capital que antes era material, agora não tem cheiro não tem cor, é informação. Informação teleguiada, 24 horas, um disparo, um botão, mundo virtual em nenhuma mão. Empresas sem sede e sem nação, trabalho em casa para o patrão, é tudo virtual, folha de pagamento e cartão de ponto. E chegará o dia, não daquela utopia de Marx do desenvolvimento máximo, mas o dia que será privatizado todo o estado e então teleguiados por fibras ópticas na tela do computador, sem sair de casa, sem contato humano, sem calor... seremos também apenas máquinas, porque perdemos o controle. 

sábado, 13 de novembro de 2010

Auto Engano

"... o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entando, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer."
(Jean Paul Sartre)

O homem, quando diante de uma escolha difícil e desfavorável, com freqüência se refugia no auto-engano, fenômeno chamado por Sartre de má fé. O homem quando atormentado pela angústia de que é livre e que somente ele, sem auxílio algum, deve decidir por si mesmo, geralmente este recorre a duas opções. Na primeira delas se atribui a responsabilidade de sua ação à fatalidade de um destino. Na segunda este finge não escolher, se auto-engana ou segue uma moral pré-estabelecida, se torna adepto de algum dogma religioso, moral ou ideológico optando por seguir em vez criar-se a si próprio. Um bom exemplo disso é o indivíduo que numa eleição se abstém de votar ou vota nulo, alegando que não participará do processo democrático para não ser conivente com a escolha de um representante ruim, quando nenhuma das escolhas lhe é favorável. Ele alega que não escolher é também uma escolha. Porém ele está apenas se auto-enganando, acreditando que não escolhendo estará isento de responsabilidade no devir. O indivíduo que assim pensa, age desta forma somente para se livrar da angústia da escolha, da responsabilidade que implica assumir riscos quando não há alternativas favoráveis nem fáceis. Então ele prefere se acovardar assim como aquele que prefere morrer do que ir pra guerra. Viver implica em escolher, assumir riscos, responsabilidades e ser agente do próprio destino. Quem não escolhe a si próprio diretamente, escolhe a si próprio indiretamente como um acidente de percurso.

"A liberdade absoluta mete a justiça a ridículo. A justiça absoluta nega a liberdade. Para serem fecundas, as duas noções devem descobrir os seus limites uma dentro da outra."
(Albert Camus)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Destinados a incompreensão

Edward Hopper


Não acredito que alguém possa me compreender. Para isso ser possível deveria supor que esse alguém pudesse me conhecer, pensar e sentir como eu. Mas eu sozinho já sou gente demais. Não sou numa única direção, não sou inteiramente livre para isso. Mas, se pelo contrário, sou em multi direções, quem pode estar em todas elas a não ser eu mesmo? O juízo do outro sobre mim estilhaça-me por completo. Seu entendimento não é sobre mim, mas apenas de um fragmento, ou sou por inteiro ou não sou. Se sou apenas o agora, o entendimento do outro está sempre desatualizado. Se não nos mostramos por completo, não em razão das máscaras sociais, mas em função de nossa própria limitação, qualquer juízo será apenas um sintoma. Ainda assim, se sou daqueles que se distanciam irremediavelmente da superfície para o profundo, para o abismo e não encontre dentre os vivos, alguém a quem me sinta próximo, que esperar daqueles que jamais sairam da superfície? Nada além de que estamos destinados a incompreensão.

sábado, 23 de outubro de 2010

Politeísmo


A maior utilidade do politeísmo - Que o indivíduo determinasse a si mesmo o seu ideal particular e dele originasse a sua lei, seus amigos e seus direitos, eis o que talvez fosse considerado um monstruoso engano humano e uma idolatria em si mesma; realmente, os raros que a ela se atreviam tinham sempre necessidade de fazer a sua apologia aos seus próprios olhos, e geralmente nestes termos: "Não fui eu! Não fui eu! Mas sim um deus que agiu por mim!". Foi a força maravilhosa, a arte espantosa de criar deuses, o politeísmo, que permitiu que esse instinto se descarregasse, se purificasse, se aperfeiçoasse, se enobrecesse: pois que isso era, a princípio, apenas uma tendência vulgar e pobre, parente do egoísmo, da desobediência e da inveja. Combater esse instinto do ideal pessoal foi antigamente a lei de toda moralidade. Só havia então um modelo: "o homem", e todos os povos julgavam possuir dele a amostra definitiva. Mas acima, e fora da pessoa, na distãncia de um mundo superior, tinha-se a permissão de ver uma pluralidade de normas; nenhum deus era a negação, a blasfêmia de um outro deus! E foi aí que se começou a permitir o aparecimento de indivíduos, a honrar-se um direito individual. A invenção dos deuses, de heróis e de super-homens de todas as espécies, assim como de homens sátiros, de demônios e de diabos, foi uma inestimável preparação à justificação do amor-próprio e da soberania do indivíduo: a liberdade concedida a um deus nas suas relações com os outros deuses, acabou por ser concedida a si mesmo, através das leis, dos costumes e dos vizinhos.


O monoteísmo, ao contrário, essa rígida consequência da doutrina de um só homem normal - desta vez, portanto, em um deus normal junto do qual não há senão falsos deuses - foi talvez até agora o maior prerigo da humanidade: ameaçou-a com a paragem prematura a que chegaram já, até onde pudemos julgar, a maior parte das outras espécies animais, convencidas como estão da existência de um só animal normal, de um só ideia da sua espécie, depois de terem feito entrar definitivamente a moralidade na sua carne. No politeísmo, encontra-se já uma primeira imagem do livre-pensamento, do polipensamento do homem: a força de se criar olhos novos e pessoais, cada vez mais novos e mais pessoais, de tal maneira que somente para o homem, entre todos os animais, não há horizontes nem perspecivas eternas. 


(Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência - 143)

domingo, 17 de outubro de 2010

Philosophia

"Filosofia (do grego Φιλοσοφία: philos - que ama + sophia - sabedoria, « que ama a sabedoria ») é a investigação crítica e racional dos princípios fundamentais relacionados ao mundo e ao homem."
(Wikepédia)

Por se tratar de uma investigação crítica e racional, por excelência, deve se excluir da investigação fatores ligados a emoção, utilidade e, como diria o filósofo Nietzsche, eliminar totalmente o apego à verdades ou inverdades, crenças metafísicas e tudo quanto é ligado a subjetividade, buscando acima de tudo a objetividade. Deve se, como condição essencial da filosofia, mergulhar na realidade, se embriagar de lucidez e "de onnibus dubitandum" - de tudo duvidar. É preciso aprender a desaprender, começar outra vez a explorar o mundo, buscar descobri-lo tal como é, ignorando o mundo "como gostaríamos que ele fosse", sempre com uma visão crítica e racional. Não se deve jamais esperar da ciência e da filosofia descobertas agradáveis. Se tens "amor pelo saber" nunca se deve buscar uma verdade agradável, se assim fizer, isso é tudo, menos filosofia. A filosofia não traz felicidade, pode apenas propiciar ao terreno boas condições onde pode a sabedoria germinar. A filosofia é também uma ponte entre o mundo superficial e o mundo tal como é, porém uma vez atravessada essa ponte, jamais poderá voltar, a filosofia destrói à marteladas o mundo superficial, o mundo de ilusões, próteses e consolos metafísicos. A sabedoria, dizia o filósofo André Comte, é extrair da lucidez o máximo de felicidade - eis uma tarefa nada fácil.