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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Dialética Interior

Angel Estevez
Todo pensamento é acompanhado por um sentimento, este por sua vez é o produto das percepções individuais e este último é resultado do seu pensamento e sistema sensório. Temos aí uma dialética interior, que elimina qualquer possibilidade de causalidade, de um sistema linear, qualquer espécie de estruturalismo ou mecanicismo.   O indivíduo é fragmentado como um rizoma, diz Deleuze, ao contrário do que pensava Freud, não temos uma raiz central, no caso a sexualidade. Somos um todo e nada mais, o produto das contradições das relações interiores e exteriores. Somos ao mesmo tempo a nossa própria sensação e uma coisa externa, afinal nos percebemos como Seres separados de todo o resto. No universo exato e frio dos números a causalidade é perfeitamente possível, mas inviável quando se trata do Ser, que é apenas aquilo que faz com o mundo seja e ao mesmo se faz frente ao espelho do Outro e do Mundo. 

(Alan Silva)

sábado, 25 de dezembro de 2010

Ciência e Ceticismo

Norman Parker
Não, nossa ciência não é uma ilusão. Ilusão seria imaginar que aquilo que a ciência não nos pode dar podemos conseguir em outro lugar.

(Sigmund Freud)

 Ciência é a doutrina sistemática de obtenção de conhecimento e seu  motor é a dúvida. Sem dúvidas, não há perguntas, sem ceticismo qualquer inverdade se torna uma verdade, sem critérios, sem métodos, guiada apenas pela nossa ingenuidade. A verdade é um quebra cabeças, montá-lo é impossível. Impossível é apenas aquilo que ainda não conseguimos fazer. Algumas dessas peças podem ser confortantes, outras desoladoras.

Mitos são tomados por verdades, considerando apenas a sua utilidade prática de consolo existencial - um legítimo tapa buracos metafísico. Não considero que essa metafísica seja irreal, considero  apenas que não é seguro e incongoscível até mesmo para especular-mos, por isso a ciência concentra-se apenas no que é 'tangível' no universo humano. Quantas vezes já não nos agarramos a mais irracional das ilusões, das esperanças, para justificar qualquer fatalidade, para servir de consolo para qualquer desgraça e depois percebemos o engano? Se o conhecimento não for validado por um legítimo e rigoroso método científico, estaremos sempre fadados ao erro.

Por outro lado, a descrença, o ceticismo existe em abundancia. Não o ceticismo científico, o pior dos ceticismos - a descrença nos valores éticos, na utilidade prática da atitude e na ação em prol da ordem, do Cosmos. A descrença no que realmente tem uma utilidade prática para a ordem, para progresso, para o bem de todos. Esta sem dúvida é a pior das crenças, ou melhor, a descrença.

Se por uma lado não existe ciência sem dúvida,  por outro não existe mudança sem atitude. O ainda não descoberto é possível, considerando as possbilidades com segurança e responsabilidade. O ainda não construído é possível, o melhor dos mundos, só é preciso construí-lo, mas depende inteiramente de nós, apenas nós.

domingo, 28 de novembro de 2010

Citações fora de contexto

Edward Hopper
Freqüentemente encontramos por aí citações de importantes pensadores, citações polêmicas que fora de contexto podem tomar um significado totalmente deturpado. É um caso freqüente o filósofo genealogista Friedrich Nietzsche com sua vasta é difícil obra que exige muito mais do que uma simples leitura, mas como o próprio dizia é preciso aprender a arte de ruminar seus escritos para entende-los. Assim como ele, é todo filósofo, uso de linguagem técnica, na forma culta, metáforas e no caso do Nietzsche até a forma poética. 

A mulher foi o segundo erro de Deus. (Nietzsche)
A princípio parece uma preconceituosa frase sem sentido e sem fundamento, assim como a célebre "Deus está morto" (Vide O Impacto de Nietzsche no século XX e Nietzsche e Nazismo), que assim como a primeira é mal interpretada na maioria das vezes. Para se entender é preciso analisá-la em seu contexto que segue abaixo. É preciso tomar cuidado antes de citar qualquer pensador para não se comenter o equívoco de mal entende-lo, quando muitas vezes, esses velhos pensadores, querem dizer no contexto exatamente o contrário do que a frase isolada diz.

XLVIII

O velho Deus, todo “espírito”, todo grão−padre, todo perfeição, passeia pelo seu jardim: está entediado e tentando matar tempo. Contra o enfado até os Deuses lutam em vão(1). O que ele faz? Cria o homem – o homem é divertido... Mas então percebe que o homem também está entediado. A piedade de Deus para a única forma da aflição presente em todos os paraísos desconhece limites: então em seguida criou outros animais. Primeiro erro de Deus: para o homem esses animais não representavam diversão – ele buscava dominá−los; não queria ser um “animal”. – Então Deus criou a mulher. Com isso erradicou enfado – e muitas outras coisas também! A mulher foi o segundo erro de Deus. (o grifo é meu) – “A mulher, por natureza, é uma serpente: Eva” – todo padre sabe disso; “da mulher vem todo o mal do mundo” – todo padre sabe disso também. Logo, igualmente cabe a ela a culpa pela ciência... Foi devido à mulher que o homem provou da árvore do conhecimento. – Que sucedeu? O velho Deus foi acometido por um pavor mortal. O próprio homem havia sido seu maior erro; criou para si um rival; a ciência torna os homens divinos – tudo se arruína para padres e deuses quando o homem torna−se científico! – Moral: a ciência é proibida per se; somente ela é proibida. A ciência é o primeiro dos pecados, o germe de todos os pecados, o pecado original. Toda a moral é apenas isto: “Tu não conhecerás” – o resto deduz−se disso. – O pavor de Deus, entretanto, não o impediu de ser astuto. Como se proteger contra a ciência? Por longo tempo esse foi o problema capital. Resposta: expulsando o homem do paraíso! A felicidade e a ociosidade evocam o pensar – e todos pensamentos são maus pensamentos! – O homem não deve pensar. – Então o “padre” inventa a angústia, a morte, os perigos mortais do parto, toda a espécie de misérias, a decrepitude e, acima de tudo, a enfermidade – nada senão armas para alimentar a guerra contra a ciência! Os problemas não permitem que o homem pense... Apesar disso – que terrível! – o edifício do conhecimento começa a elevar−se, invadindo os céus, obscurecendo os Deuses – que fazer? – O velho Deus inventa a guerra; separa os povos; faz com que se destruam uns aos outros (– os padres sempre necessitaram de guerras...). Guerra – entre outras coisas, um grande estorvo à ciência! – Inacreditável! O conhecimento, a emancipação do domínio sacerdotal prosperam apesar da guerra! – Então o velho Deus chega à sua resolução final: “O homem tornou−se científico – não existe outra solução: ele precisa ser afogado”...

1 – Paráfrase de Schiller, “Contra a estupidez até os Deuses lutam em vão”. (H. L. Mencken)

(Friedrich Nietzsche, O Anticristo, XLVIII)

domingo, 21 de novembro de 2010

Globalização

Willian Ferreira
Com o neo-liberalismo econômico pós Guerra Fria, se entregou ao poder econômico as rédeas das nações, o mundo se unificou, se interligou, se globalizou e fronteiras e culturas estão por desaparecer. O que antes era domínio do estado passou a ser a  privado: saúde, educação, saneamento básico... só restou segurança e coerção. O produto e o capital que antes era material, agora não tem cheiro não tem cor, é informação. Informação teleguiada, 24 horas, um disparo, um botão, mundo virtual em nenhuma mão. Empresas sem sede e sem nação, trabalho em casa para o patrão, é tudo virtual, folha de pagamento e cartão de ponto. E chegará o dia, não daquela utopia de Marx do desenvolvimento máximo, mas o dia que será privatizado todo o estado e então teleguiados por fibras ópticas na tela do computador, sem sair de casa, sem contato humano, sem calor... seremos também apenas máquinas, porque perdemos o controle. 

sábado, 13 de novembro de 2010

Auto Engano

"... o homem está condenado a ser livre. Condenado porque não se criou a si próprio; e, no entando, livre porque, uma vez lançado ao mundo, é responsável por tudo quanto fizer."
(Jean Paul Sartre)

O homem, quando diante de uma escolha difícil e desfavorável, com freqüência se refugia no auto-engano, fenômeno chamado por Sartre de má fé. O homem quando atormentado pela angústia de que é livre e que somente ele, sem auxílio algum, deve decidir por si mesmo, geralmente este recorre a duas opções. Na primeira delas se atribui a responsabilidade de sua ação à fatalidade de um destino. Na segunda este finge não escolher, se auto-engana ou segue uma moral pré-estabelecida, se torna adepto de algum dogma religioso, moral ou ideológico optando por seguir em vez criar-se a si próprio. Um bom exemplo disso é o indivíduo que numa eleição se abstém de votar ou vota nulo, alegando que não participará do processo democrático para não ser conivente com a escolha de um representante ruim, quando nenhuma das escolhas lhe é favorável. Ele alega que não escolher é também uma escolha. Porém ele está apenas se auto-enganando, acreditando que não escolhendo estará isento de responsabilidade no devir. O indivíduo que assim pensa, age desta forma somente para se livrar da angústia da escolha, da responsabilidade que implica assumir riscos quando não há alternativas favoráveis nem fáceis. Então ele prefere se acovardar assim como aquele que prefere morrer do que ir pra guerra. Viver implica em escolher, assumir riscos, responsabilidades e ser agente do próprio destino. Quem não escolhe a si próprio diretamente, escolhe a si próprio indiretamente como um acidente de percurso.

"A liberdade absoluta mete a justiça a ridículo. A justiça absoluta nega a liberdade. Para serem fecundas, as duas noções devem descobrir os seus limites uma dentro da outra."
(Albert Camus)

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Destinados a incompreensão

Edward Hopper


Não acredito que alguém possa me compreender. Para isso ser possível deveria supor que esse alguém pudesse me conhecer, pensar e sentir como eu. Mas eu sozinho já sou gente demais. Não sou numa única direção, não sou inteiramente livre para isso. Mas, se pelo contrário, sou em multi direções, quem pode estar em todas elas a não ser eu mesmo? O juízo do outro sobre mim estilhaça-me por completo. Seu entendimento não é sobre mim, mas apenas de um fragmento, ou sou por inteiro ou não sou. Se sou apenas o agora, o entendimento do outro está sempre desatualizado. Se não nos mostramos por completo, não em razão das máscaras sociais, mas em função de nossa própria limitação, qualquer juízo será apenas um sintoma. Ainda assim, se sou daqueles que se distanciam irremediavelmente da superfície para o profundo, para o abismo e não encontre dentre os vivos, alguém a quem me sinta próximo, que esperar daqueles que jamais sairam da superfície? Nada além de que estamos destinados a incompreensão.

sábado, 23 de outubro de 2010

Politeísmo


A maior utilidade do politeísmo - Que o indivíduo determinasse a si mesmo o seu ideal particular e dele originasse a sua lei, seus amigos e seus direitos, eis o que talvez fosse considerado um monstruoso engano humano e uma idolatria em si mesma; realmente, os raros que a ela se atreviam tinham sempre necessidade de fazer a sua apologia aos seus próprios olhos, e geralmente nestes termos: "Não fui eu! Não fui eu! Mas sim um deus que agiu por mim!". Foi a força maravilhosa, a arte espantosa de criar deuses, o politeísmo, que permitiu que esse instinto se descarregasse, se purificasse, se aperfeiçoasse, se enobrecesse: pois que isso era, a princípio, apenas uma tendência vulgar e pobre, parente do egoísmo, da desobediência e da inveja. Combater esse instinto do ideal pessoal foi antigamente a lei de toda moralidade. Só havia então um modelo: "o homem", e todos os povos julgavam possuir dele a amostra definitiva. Mas acima, e fora da pessoa, na distãncia de um mundo superior, tinha-se a permissão de ver uma pluralidade de normas; nenhum deus era a negação, a blasfêmia de um outro deus! E foi aí que se começou a permitir o aparecimento de indivíduos, a honrar-se um direito individual. A invenção dos deuses, de heróis e de super-homens de todas as espécies, assim como de homens sátiros, de demônios e de diabos, foi uma inestimável preparação à justificação do amor-próprio e da soberania do indivíduo: a liberdade concedida a um deus nas suas relações com os outros deuses, acabou por ser concedida a si mesmo, através das leis, dos costumes e dos vizinhos.


O monoteísmo, ao contrário, essa rígida consequência da doutrina de um só homem normal - desta vez, portanto, em um deus normal junto do qual não há senão falsos deuses - foi talvez até agora o maior prerigo da humanidade: ameaçou-a com a paragem prematura a que chegaram já, até onde pudemos julgar, a maior parte das outras espécies animais, convencidas como estão da existência de um só animal normal, de um só ideia da sua espécie, depois de terem feito entrar definitivamente a moralidade na sua carne. No politeísmo, encontra-se já uma primeira imagem do livre-pensamento, do polipensamento do homem: a força de se criar olhos novos e pessoais, cada vez mais novos e mais pessoais, de tal maneira que somente para o homem, entre todos os animais, não há horizontes nem perspecivas eternas. 


(Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência - 143)

domingo, 17 de outubro de 2010

Philosophia

"Filosofia (do grego Φιλοσοφία: philos - que ama + sophia - sabedoria, « que ama a sabedoria ») é a investigação crítica e racional dos princípios fundamentais relacionados ao mundo e ao homem."
(Wikepédia)

Por se tratar de uma investigação crítica e racional, por excelência, deve se excluir da investigação fatores ligados a emoção, utilidade e, como diria o filósofo Nietzsche, eliminar totalmente o apego à verdades ou inverdades, crenças metafísicas e tudo quanto é ligado a subjetividade, buscando acima de tudo a objetividade. Deve se, como condição essencial da filosofia, mergulhar na realidade, se embriagar de lucidez e "de onnibus dubitandum" - de tudo duvidar. É preciso aprender a desaprender, começar outra vez a explorar o mundo, buscar descobri-lo tal como é, ignorando o mundo "como gostaríamos que ele fosse", sempre com uma visão crítica e racional. Não se deve jamais esperar da ciência e da filosofia descobertas agradáveis. Se tens "amor pelo saber" nunca se deve buscar uma verdade agradável, se assim fizer, isso é tudo, menos filosofia. A filosofia não traz felicidade, pode apenas propiciar ao terreno boas condições onde pode a sabedoria germinar. A filosofia é também uma ponte entre o mundo superficial e o mundo tal como é, porém uma vez atravessada essa ponte, jamais poderá voltar, a filosofia destrói à marteladas o mundo superficial, o mundo de ilusões, próteses e consolos metafísicos. A sabedoria, dizia o filósofo André Comte, é extrair da lucidez o máximo de felicidade - eis uma tarefa nada fácil.

domingo, 10 de outubro de 2010

O Impacto de Nietzsche no Século XX





Segundo o filósofo brasileiro, Oswaldo Giacóia, no documentário de mesmo nome do título, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844 - 1900), foi o pensador que melhor trabalhou a questão da "crise de valores" e a crise da razão na sociedade emergente do século XIX pós revolução burguesa e industrial. Nietzsche pretendia formar um diagnóstico e um prognóstico da sociedade de sua época, e além disso, apresentar uma solução, uma terapia para a crise da modernidade. 


Uma das questões mais importantes do impacto do pensamento nietzscheano no século XX é questão da sua associação com doutrinas totalitárias, como nazi-fascismo, que foi facilitada pela irmã do Nietzsche, enquanto este encontrava-se incapaz de fazer uso de suas faculdades mentais, mergulhado no mais profundo abismo, perdido no mais distante dos labirintos. Elisabeth, era como se chamava a irmã do filósofo, se julgava como única herdeira e interprete do pensamento do seus irmão, e por afinidade com o nacional socialismo, fez o que bem entendeu, associando e aparentando o pensamento nietzscheano ao nacional socialismo. Porém, qualquer associação do pensamento do filósofo alemão, a qualquer doutrina totalitária é absolutamente incoerente com o que há de mais essencial em sua obra.

Ao que se refere ao “além homem” nietzscheano, diferente do super homem produzido pela indústria cultural norte americana – um homem potencializado fisicamente – o “além homem”, o übermensch, se trata da superação do homem moderno tal como produzido historicamente, a superação do homem “doente de si mesmo”, que para suportar a existência a saturou de próteses e consolos metafísicos. O “além homem” é aquele que encara a existência sem fazer uso de artifícios metafísicos para dar sentido a vida à assumindo em sua total falta de sentido. O homem “doente de si mesmo” produzido historicamente inventou toda espécie de artifícios metafísicos para dar sentido a existência, principalmente através da religião e da moral, que se constitui em duas negações fundamentais: a experiência de tempo e a finitude e a experiência de morte. A partir dessas duas negações inventaram ultra e além mundos, perspectivas de vida eterna, sentidos absolutos para a existência, finais escatológicos do tempo, dentre outros, sem os quais não suportariam a vida. Para Nietzsche, ultrapassar o homem é justamente superar isso e viver de maneira radical a finitude humana, sem necessidade de consolos metafísicos.  Assumir a perspectiva de que a existência não tem justificativa ética, religiosa ou metafísica, mas que se há alguma, esta pode ser apenas a perspectiva estética, isto é, que a vida assume a forma de uma bela obra de arte – e pra assim viver é preciso ser mais do que homem!

A respeito da “morte de Deus”, muito se confunde seu anunciador, Nietzsche, como seus assassino. O que Nietzsche faz, é mostrar para o homem moderno que Deus está morto, e que somos nós seus assassinos, trazendo à luz uma realidade incontornável e inextirpável do próprio movimento de esclarecimento, pois para ele a ciência é intrinsecamente ateísta. Isto é, o homem moderno colocou o homem, o mundo e a história sobre o signo da razão  esclarecida, esta por sua vez, nega qualquer forma de vassalagem e tutelagem, é a razão absoluta da auto-determinação, portanto, sem Deus, pois este exige subordinação. Porém, o homem moderno é hipócrita, quer uma coisa e seu oposto, quer a auto-determinação, mas quer a também a proteção de um absoluto qualquer, pois o homem tem necessidade de refúgio, redenção, salvação e sentido.

A razão esclarecida não pode ser detida e suas conseqüência devem ser levadas até o fim, que vão desembocar no niilismo. O niilismo é a doutrina do nada, em que nada resta de consolo ao homem moderno, suprimindo qualquer valor histórico, como o caso da anarquia total e o hedonismo da sociedade de consumo; ou o apego a total a valores históricos como é o caso do fundamentalismo.

O Eterno Retorno é a solução apresentada, uma forma de representação cíclica do tempo, em que tudo que ocorre se repetirá infinitas vezes exatamente como ocorreu. O niilista passivo vive resentido, em condições perenes, das quais não consegue se desprender. O niilista ativo, pelo contrário, é aquele que reconhece suas condições e busca superá-las, somente este pode viver o eterno retorno. Este, por sua vez, significa assumir uma perspectiva afirmativa perante uma existência sem sentido, convivendo com a experiência de tempo e finitude e a experiência de morte, sem um final apocalyptico ou sentido absoluto. Significa assumir uma posição ativa, assumir o controle e a total responsabilidade por si mesmo, fazer com que cada ato seja desejado de tal forma que seja digno de ser repetido infinitas vezes e de forma que se deseja que a vida, tal como foi, se repita infinitas vezes.

Nietzsche muitas vezes é interpretado de forma equivocada e associado às doutrinas mais perversas que já existiram como nazi-fascismo e eugenia. Porém todas essas doutrinas possuem o que ele mais desprezava, o niilismo passivo, os sintomas do “ultimo homem”, do homem “doente de si mesmo”, ressentido e que odeia a vida. Nietzsche propunha a superação desse homem, algo além do homem capaz de afirmar a vida (eterno retorno), de amar o seu destino tal como é (amor fati), lidar com a realidade tal como ela se apresenta e viver e permitir que o outro viva tal como o seu próprio projeto. 




Resenha: Alan Teixeira,
Documentário: O Impacto de Nietzsche no século XX, por Oswaldo Giacóia, TV Cultura.

domingo, 12 de setembro de 2010

Objetividade e Subjetividade

Johannes Vermeer
A objetividade é a virtude com qual sonha toda ciência e filosofia, a ilha dos bem aventurados, o continente ainda não descoberto, a órbita de todos os astros! Essa imparcialidade tão sonhada para com a verdade, a indiferença para com os sentimentos e impulsos mais dominadores.

Se por um lado somos incapazes de superar nossa condição humana subjetiva, repleta de limites de percepção e necessidades fisiológicas; limites emocionais produto da apreciação e depreciação dos fenômenos do mundo, que fazem-nos posicionar a respeito de algo a partir da inclinação e prazer ou aversão e desprazer, nos impossibilidade o conhecimento objetivo. Por outro é a própria subjetividade que da cor, brilho e sentido à vida, à existência. Independente da cor e brilho, do sentido, é nossa capacidade e necessidade de atribuir valores e significados que torna a existência algo simplesmente magnífico, independente se seja ou não.


Supondo que pudéssemos eliminar da condição humana todas as paixões, vícios, sentimentos e tudo aquilo que nos afasta da objetividade, exceto condições puramente biológicas, não faríamos de nós mesmos seres desprezíveis? Sequer poderíamos ser chamados de seres, seríamos apenas objetos.

Ao eliminar tudo aquilo que pertence à esfera do subjetivo, eliminaríamos conjuntamente tudo aquilo que caracteriza o ser no mundo - toda a arte, da música à literatura, das artes cênicas às artes plásticas... e assim tiraríamos da vida toda sua prodigiosa exuberância. Não restaria nem mesmo a ciência, restando apenas a objetividade, esta não nada seria sem o impulso criador, a vontade de verdade, o sentimento que nos impulsiona em direção ao desconhecido, ao longínquo, como desbravadores por terras e mares desconhecidos, cheio de perigos... Ah se não fosse o prazer pelo perigo, pela aventura, o deleite da descoberta... sem a subjetividade não teríamos nem arte nem ciência, eis a condição primordial para a existência - o impulso subjetivo para o prazer!

Alan Silva