Acesse meu outro blog ->

Acesse meu outro blog --> Pensamentos e Fragmentos

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Cultura de Massas


            Cultura, de maneira geral, pode ser definida como todo o resultado advindo da produção humana, ou seja, da interpretação e criação, seja artística ou científica, com o fim de servir o homem de alguma forma. A cultura de massas é o conhecimento cultural dominante pela maioria da população de determinado grupo, ou seja, das massas, e de produção menos sistemática e mais heterogênea. 

            A cultura de massas possui caráter heterogêneo, isto é, predomina a grande diversidade cultural, com suas raízes na cultura popular, erudita, científica, etc. A cultura de massas surgiu como conseqüência do surgimento das tecnologias da informação e comunicação produzidas no século XX, como rádio, cinema, tv, Internet, etc. Essas tecnologias difundem grandes quantidades de informação, dos mais diversos círculos culturais, com grande abrangência. Umas das características marcantes da cultura de massa é a ausência de uma crítica apurada, o que leva muitas vezes a distorção, banalização e preconceito das demais culturas, como conseqüência de informações quantitativas e não qualitativas, que muitas vezes são difundidas com fins tendenciosos. 

            Portanto, é preciso ter prudência em relação a tudo quanto advém da cultura de massa e desenvolver uma crítica apurada para formar uma opinião segura e independente, livre de preconceitos, distorções e, por fim, para que não seja manipulado pelos detentores do monopólio das tecnologias da informação e comunicação.



 Alan Silva

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O Fantasma na Máquina

Quando Vic Tandy ficou até tarde no trabalho uma noite mal sabia que estava a ponto de tropeçar em uma possível razão porque algumas pessoas vêem fantasmas. Sua ‘Teoria do Infrasom’ levou os membros da Society for Psychical Research a aconselhar os investigadores paranormais a estarem atentos aos efeitos elusivos que ondas sonoras de baixa freqüência podem trazer.

Por algum tempo Vic tinha ouvido estórias de fantasmas de outros colegas da empresa fabricante de equipamentos médicos onde trabalhava, mas sendo um engenheiro sensato, ele descartou as estórias e deixou as experiências do pessoal aos animais locais ou vários pedaços de equipamento zumbindo. Não até que decidiu ficar até tarde uma noite. Ele começou a perceber que talvez houvesse mais do que havia pensado original e racionalmente.
Enquanto trabalhava, Vic começou a sentir intranqüilo e teve o sentimento de que outra pessoa estava na fábrica com ele embora soubesse que estava sozinho. Então de repente viu uma aparição cinzenta aparecer à sua esquerda. O recinto parecia frio e ele teve um sentimento forte de estar sendo observado. "Não seria irracional sugerir que eu estava apavorado", disse depois. Ele finalmente juntou coragem o bastante para enfrentar a visão misteriosa, mas quando se virou a imagem desapareceu. 

Na manhã seguinte Vic trouxe uma chapa de esgrima ao trabalho, não para proteção mas para fazer um trabalho pequeno de conserto na manivela. Ele pôs a lâmina de lado e foi à procura de um pouco de óleo. Quando voltou notou que a chapa estava vibrando. Ele teve o mesmo senso de intranqüilidade que tinha experimentado na noite anterior mas agora quis saber se as vibrações na espada tinham qualquer coisa a ver com esta sensação inexplicada ou, se for assim, com os eventos da noite anterior. 

Vic tinha visto este efeito antes e lhe ocorreu que um som de baixa freqüência de uma máquina poderia estar fornecendo a energia para mover a chapa, um som tão grave que não era audível. Ele começou a experimentar e eventualmente conseguiu localizar a causa do problema em um exaustor. Seguindo testes adicionais Vic concluiu que o ventilador estava causando uma "onda estacionária de 19Hz" e decidiu pesquisar o que tal efeito causaria no corpo humano.

Ele consultou ‘Infra sound and Low-Frequency Vibration’ editado por W Tempest (Academic Press, Londres, 1976) e achou um par de estudos de caso interessantes. ‘Consultores de barulho foram solicitados a examinar um grupo de baías em uma fábrica onde os trabalhadores relataram sentir-se intranqüilos.
A baía tinha um ambiente opressivo que não estava presente nas áreas adjacentes embora o nível de barulho parecesse o mesmo. 

Os trabalhadores da administração e consultores estavam todos atentos da atmosfera incomum e em investigação descobriu-se que som de baixa freqüência estava presente a um nível ligeiramente mais alto que em outras baías, contudo a freqüência exata do barulho ofensor não era óbvia. 

A causa do barulho era um ventilador no sistema de ar condicionado. Os trabalhadores em um prédio universitário de radioquímica experimentaram o mesmo sentimento opressivo acompanhado de vertigem quando o ventilador em um armário de fumaça era ligado.

Isolantes de som convencionais tinham reduzido o som audível ao ponto onde quase não havia qualquer diferença no barulho do ventilador ligado ou não. A situação afetou algumas pessoas tanto que se recusaram a trabalhar no laboratório. Foi concluído que o componente de baixa freqüência do som era o responsável.
Vic Tandy concluiu que "O infra-som tem dois efeitos. Faz o globo ocular vibrar e assim borra sua visão e também causa sobre-respiração ou hiperventilação, que levam a sentimentos de medo e ansiedade. Você provavelmente precisa de um objeto ou um movimento pequeno na periferia de sua visão para começar o fenômeno, então o cérebro pode preencher os detalhes de seu subconsciente." 

Enquanto isso um Relatório Técnico da NASA (19770013810) menciona uma freqüência ressonante do olho humano de 18 Hz causando severo ‘borrão’ da visão. Outros documentos analisando o efeito do infra-som e vibração de baixa-freqüência sugerem que hiperventilação e outras condições respiratórias podem ser também ligadas ao fenômeno. 

As descobertas de Vic Tandy e seu associado Tony R Lawrence apareceram no Journal of the Society for Psychical Research e o artigo deles começa com o parágrafo seguinte: ‘Neste documento nós esboçamos uma causa natural ainda não documentada para alguns casos de assombração ostensiva. Usando a própria experiência do primeiro autor como um exemplo, nós mostramos como uma onda de ar estacionária de 19Hz pode sob certas condições criar fenômenos sensórios sugestivos de um fantasma. A mecânica e fisiologia deste efeito ‘fantasma na máquina’ são esboçadas. Pesquisadores de caso espontâneos são encorajados a excluir esta explicação natural potencial para experiência paranormal em casos futuros de assombração ou do tipo poltergeist’. 

Vic Tandy está atualmente pesquisando a possibilidade de que certas condições de tempo também possam causar infra-som, explicando assim algumas assombrações ao ar livre. Ele suspeita que camadas de ar em movimento poderiam causar ondas sonoras em situações como temporais mas no momento está procurando artigos acadêmicos sobre este fenômeno difíceis de encontrar.

***

Notas do editor CA: O título original do texto é ‘A Sound Theory?’. A imagem de capa foi retirada da página Fortean Slips (parascope), Spooky Acoustics. Os recursos adicionais abaixo foram adicionado pelo editor CA.

Fonte: http://www.ceticismoaberto.com/paranormal/2083/o-fantasma-na-mquina

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Homo Sapiens 1900 - Peter Cohen


Homo Sapiens 1900 é um documentário do sueco Peter Cohen, feito a partir de arquivos históricos, incluindo fotos e filmes, que discorre sobre a Eugenia e sua aplicação ideológica e científica no século XX.

O termo “eugenia” foi cunhado pelo inglês Francis Galton em 1883, que significa “bem nascido” e foi definida por ele como o “estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”. Galton é fortemente influenciado pela obra A Origem das Espécies, do seu primo Charles Darwin. Galton propôs a “seleção artificial”, que seria o controle sobre as “forças cegas da natureza” da “seleção natural” para melhoramento da espécie humana conforme seus ideais. Tendo em vista que a concepção de homem da época o via em constante degeneração, longe dos ideais mentais e físicos cultivados pela intelectualidade e pelas artes plásticas, inclusive a antiga grega. Diz Peter Cohen:

“A imagem do homem revela o que o distingue dos outros seres: sua habilidade de observar a si próprio. É a sina do homem que ele não só se contenta com o que vê, mas se aborrece com suas próprias imperfeições físicas e mentais.” (...)

“Arte: o produto sublime da autocontemplação. A imagem clássica do homem em busca da beleza e harmonia, longe da impassível realidade. O desespero do homem em face da sua própria inadequação sua incapacidade de conviver com a imagem que ele próprio criou levam nos a essa impotência.”

 (Capela Sistina - Michelangelo)

A Eugenia obteve aceitação esmagadora dos cientistas da época, dividida em “Eugenia Positiva” e “Eugenia Negativa” e aceita pelas duas principais correntes de pensamento da época, Lamarckistas e Mendelistas. A “Eugenia Positiva” consistia na reprodução de casais seletivos, com as características ideais, na crença de que com a soma das características do casal se obteria ao longo das gerações a melhoria da raça. A “Eugenia Negativa” consistia no impedimento da reprodução de indivíduos considerados “não-aptos” ou “degenerados”, evitando assim o empobrecimento genético da raça como um todo. Os Lamarckistas acreditavam que as características adquiridas eram transmitidas para os descendentes alimentando a esperança de criar um “novo homem”. Os Mendelistas acreditavam que apenas as características herdadas eram transmitidas aos descendentes através da hereditariedade, que posteriormente foi comprovada.

Ao contrário do que se pensa a Eugenia é de origem inglesa e foi fortemente aceita pela maioria da Europa, URSS, EUA, e outros paises. Os Estados Unidos foram pioneiros na aplicação prática da Eugenia, sendo os criadores da Eugenia Negativa e o primeiro a criar leis proibindo a reprodução dos até então considerados “degenerados”. Em seguida Suécia adotou um sistema de lei similar, proibindo a reprodução de cerca de 8 mil pessoas consideradas “degeneradas” e foi na Alemanha Nazista que a Eugenia Negativa atingiu o ápice do horror na esterilização a força de 400 mil e eliminação de 100 mil alemães considerados inaptos, além do ódio aos judeus que levou ao genocídio da até então raça considerada inferior.

Enquanto isso diversos testes mentais são elaborados por cientistas na tentativa de medir a inteligência e diversas competições são feitas nos Estados Unidos e Suécia, premiando aqueles que se sobressaíssem.

No ano de 1927, o geneticista Alexander Serebrovski tentou impedir o avanço do Lamarckismo num artigo científico que descrevia a descoberta de Herman Muller que o Raio X causa mutações genéticas. De acordo Serebrovski essa descoberta demonstrava a falsidade da teoria Lamarckista. Porém Muller continua obcecado pela Eugenia e tenta dar continuidade as pesquisas a favor da Eugenia na URSS, que foi o pioneiro na proibição da Eugenia. O que seria o sonho do fascismo nazista, era o pesadelo da União Soviética e do comunismo. Muller se dirige diretamente a Stalin com a proposta de criação do “novo homem socialista”. Escreve Muller:

 “Caro camarada Stalin. Como um cientista confiante nos últimos triunfos bolchevistas em todas as esferas possíveis venho a você com um assunto de vital importância. Trata-se nada menos que o controle consciente da evolução biológica humana que é o controle do material hereditário, a base da vida”.

Muller condenava a doutrina da pureza racial nazista e afirmava que a eugenia só poderia ser produto do socialismo e acreditava que dentro de poucas gerações poderia se elevar a massa a condição de gênio. Porém para Stalin genética, eugenia e fascismo são considerados uma coisa só e é dada voz de prisão a Muller, que foge da URSS.

Em 1942 Estados Unidos estão em guerra com Alemanha e movimento eugênico entra em retração. Isso não por causa somente do genocídio nazista, mas por causa das descobertas da genética que mostram que Eugenia não tem validade cientifica. Em 1945 acaba a segunda guerra mundial com a derrota da Alemanha e do Eixo. Com isso surge a Organização das Nações Unidas e criação dos Direitos Humanos. A partir disso a eugenia perde força e são discutidas questões éticas de sua aplicação, sendo extinguida em todo o mundo.

Peter Cohen encerra o documentário com as seguintes palavras:

“Sob as ruas da cidade, os cemitérios da civilização. Os restos biológicos da hereditariedade. ‘Oh, essas novas ciências’ escreve Emile Zola há cem anos atrás.‘Essas novas ciências que ainda falam a linguagem das hipóteses e que ainda não se libertaram do poder da imaginação. Elas tem mais haver com os poetas do que com os cientistas. Que formidável afresco fica para não ser pintado que colossal comédia e tragédia humana não foi escrita! O material de que cada questão da hereditariedade nos dá parece infinito.’”

(...)“O homem criou uma civilização que o isola da natureza e o deixa em um conflito entre o progresso e a saudade do passado. A civilização é guiada pelo conceito do eterno progresso que pode sempre abrir novas portas.”



O documentário possui uma retórica impecável e apesar de ser um conteúdo um tanto “pesado” e dramático, sua estruturação é feita com argumentações intermitentes, seguida de uma suave música, permitindo assim que o espectador “respire” e possa digerir bem as informações. Porém na argumentação o autor ignora uma série de críticas de antropólogos como Alfred Kroeber, Franz Boas, Levi-Strauss que demonstraram a inexistência de raças e que a evolução humana é influenciada mais pela “seleção cultural” do que pela seleção natural.¹ Mesmo assim é um documentário excelente e imprescindível para melhor entendimento da história do século XX que foi marcado por diversos conflitos e escrita com sangue humano. É preciso conhecer o passado para entender o presente e para construir o futuro sem cometer os mesmos erros do passado.

"Quem não sabe prestar contas de três milênios
Permanece nas trevas ignorante,
E vive o dia que passa."
                 
                                (Goethe)

 _____________________________________________
Referencias Bibliográficas:

Homo Sapiens 1900 – Peter Cohen (1998).
Cultura: um conceito antropológico – Roque Laraia (1986).

Nota:
1 Cultura: um conceito antropológico – Roque Laraia (1986)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Hamlet - Shakespeare

Hamlet é considerada uma das obras primas de Shakespeare, imortalizada pelo seu caráter dramático e trágico e pela magnífica representação do "espírito do seu tempo". A peça se passa na Dinamarca, no século XVII. O enredo se trata dos conflitos em que o Príncipe Hamlet enfrenta com a  morte de seu pai, o Rei Hamlet, que posteriormente ele descobre que foi assassinado pelo seu tio, irmão do seu pai. O Rei aparece sob a forma de um fantásma e revela a verdade para Hamlet ,que a pedido do seu pai jura vingança ao seu tio, que além de assumir o trono desposou sua mãe, a Rainha. 

Muito além de apenas um peça dramática e trágica, Hamlet é a expressão mais profunda do "Zeitgeist", termo alemão que remete a "espírito do tempo", que revela muitas das angústias do seu tempo, do Renascimento. O "Renascimento" é transição da Idade Média para um novo tempo em que diversas mudanças antinômicas acontecem, como surgimento da idéia de liberdade, a subjetividade, a perda do poder do Clero e principalmente  que Deus deixa de ser o centro do mundo e de determinar o todo, e o homem passa a ser o centro do mundo e livre para se determinar. A crença em Deus não deixa de existir, mas Deus é enviado para o céu e na terra fica apenas o homem e seu livre-arbítrio.Se Deus não determina mais o devir e nem é o centro do mundo, isso passa a ser tarefa do homem, determinar a si mesmo e definir toda escala de valores - o Bem e o Mal. Toda essa liberdade gera angústias, dúvidas, incertezas. 

Na obra Hamlet fica evidente o conflito de valores, a angústia, dúvida e hesitação ao agir e o que fazer  - "Ser ou não Ser, eis a questão!". E também a inauguração dos monólogos, os diálogos consigo mesmo, o processo de interiorização e introspecção que não existia na idade média e passa a ser uma das características marcantes do Renascimento até a Modernidade nos dias de hoje.


Referencias bibliográficas:

Hamlet - Shakespeare
A Construção do Eu na Modernidade da Renascença ao século XIX - Pedro Luiz Ribeiro Santi


Alan Silva

terça-feira, 6 de abril de 2010

Os Prisioneiros

Os prisioneiros – Uma manhã, os prisioneiros entraram no pátio onde trabalhavam; o guardião estava ausente. Alguns se puseram imediatamente a trabalhar, como era do seu feitio; outros nada fizeram, olhando desafiadoramente ao seu redor. Então um deles avançou e disse: “trabalhem o quanto quiserem ou não façam nada: não importa. Seus planos secretos vieram à luz, o guardião os espiou ultimamente e vai enunciar um tremendo juízo sobre vocês nos próximos dias. Vocês o conhecem, ele é duro e rancoroso. Mas prestem atenção: até agora vocês se enganaram a meu respeito; eu não sou o que pareço, mas muito mais: sou o filho do guardião e posso tudo com ele. Posso salvá-los, quero salvá-los; mas vejam bem, apenas aqueles entre vocês que acreditam que sou o filho do guardião; os demais colherão os frutos da sua descrença.” “Ora,” falou, após um instante de silêncio, um prisioneiro mais velho, “que diferença lhe faz se acreditamos ou não em você? Se é realmente o filho do guardião e consegue tudo o que diz, interceda por todos nós: seria uma grande bondade sua. Mas deixe de lado a conversa de crer ou não crê!r” “Além disso”, gritou um homem mais jovem, “eu não acredito nele: é somente uma coisa que ele pôs na cabeça. Aposto que em oito dias estaremos neste mesmo lugar, e o guardião não sabe nada.” “E, se sabia, não sabe mais”, disse o ultimo dos prisioneiros, que acabava de entrar no pátio; “o guardião morreu agora, de repente.” – “Olá!”, gritaram vários ao mesmo tempo, “olá! Senhor filho, como fica a herança? Será que somos agora seus prisioneiros?” – “Eu lhes disse”, replicou suavemente aquele que interpelavam, “vou libertar todos os que crêem em mim, tão certo como meu pai ainda vive.” – Os prisioneiros não riram, mas deram com os ombros e o deixaram ali parado.

(Nietzsche - O Andarilho e sua Sombra, aforismo 84)

quarta-feira, 31 de março de 2010

O Muro

"Quer fazer a diferença?
Construa uma parede.

Quer mudar o mundo?
Pinte sua parede de amarelo manga.

Quer ensinar o tom certo?
Escreva a teoria do amarelo manga na parede.

Quer que todos leiam?
Coloque a parede no meio da rua.

Quer transformar sua teoria em religião?
Fale mal da parede dos outros.

Quer ser considerado messias?
Diga que construiu a parede do nada.

Quer que todos acreditem nisto?
Esconda os tijolos com massa corrida.

Quer criar uma franquia?
Escreva o livro da construção da parede.

Quer ter muitos franqueados?
Diga que é pecado construir paredes diferentes.

Quer que os franqueados obedeçam?
Diga que do outro lado da parede é o inferno.

Quer se sentir poderoso?
Sente-se no topo da parede.

Quer fingir que é humilde?
Olhe para baixo.

Quer saber a verdade?
Olhe pra sua parede."

(Marcelo Ferrari)


segunda-feira, 29 de março de 2010

O Nascimento da Tragédia

O Nascimento da Tragédia,

ou Helenismo e Pessimismo



Esta é a primeira obra do fiilósofo mais polêmico da Pós-Modernidade, e talvez até, por que não, o mais polêmico da história. Filósofo que se autodenominou "o homem que nasceu póstumo", por ter sido incompreendido pelos seus contemporâneos. Obra de um então jovem professor de letras clássicas despertou polêmica pelo seu caráter pessoal e pela ousadia de sua abordagem: desafiava a concepção tradicional dos gregos como povo sereno e simples, e exaltava a ópera de Wagner como renovadora do espírito alemão, numa singular mistura de reconstrução histórica, intuição psicológica e militância estético-cultural. Nesta obra o filósofo oferece não só uma interpretação das tragédias gregas, mas da própria cultura grega e moderna, do nexo entre arte e conhecimento e da época moderna.


O autor começa por afirmar que o contínuo desenvolvimento da arte está diretamente ligado à duplicidade do apolíneo e dionisíaco. O apolíneo é relativo ao deus Apolo, apresentado como o deus do sonho, das formas, das regras, das medidas, dos limites individuais. O apolíneo é a aparência, a individualidade, o jogo das figuras bem delineadas; e o dionisíaco é apresentado como o gênio ou impulso do exagero, da fruição, da embriaguez extática, da libertação dos instintos. É o deus do vinho, da dança, da música e ao qual as representações de tragédias eram dedicadas.


O Mito trágico é uma representação simbólica ou imagética da sabedoria dionisíaca. O dionisíaco manifesta-se a si próprio por intermédio de processos apolíneos – estéticos, representação. Essas representações levavam o publico a uma espécie de horror e posteriormente os arrebatavam através do prazer que sentiam por meio dos fenômenos inconscientes de si mesmos representados nas peças.


A duplicidade destes impulsos resulta numa luta incessante e se intervem periódicas reconciliações. A arte apolínea é a arte do figurador plástico, da estética; e a não figurada da música é a dionisíaca. Segundo Nietzsche ambos os impulsos caminham juntos, na maioria das vezes em discórdia aberta e incitando-se mutuamente a produções sempre novas. Contraposição que deu origem através do ato metafísico da vontade, gerando a tragédia ática. Segundo o autor estes dois impulsos básicos da criação da arte tem origem na embriaguez (dionisíaco) e nas representações oníricas (apolíneo). De um lado o conceito Uno-primordial - o impulso básico e primordial comum a todos o indivíduos, pelo qual se universaliza e imortaliza a arte (dionisíaco); e por outro o princípio-individual - impulso individual que diferencia o indivíduo da universalidade, o ato subjetivo.(apolíneo).

É feito uma analise da importância da arte para o povo grego, que devido a consciência das lástimas da existência tinha necessidade da arte para suportar a vida, onde o espectador via a si mesmo nas representações. Acontecia aí o fenômeno da purificação chamado por Aristóteles de catarse. Segundo Nietzsche “O nascimento da tragédia” se deu de maneira inconsciente, ora fruto da embriaguez, ora dos sonhos, que se imortalizou devido à necessidade da arte que é indelével a todos seres humanos quando conscientes das lástimas da existência, que também de maneira inconsciente se purificavam ao contemplá-las.


A morte da tragédia se deu graças a Sócrates com seu racionalismo. Sócrates percebeu que as pessoas não tinham um conhecimento seguro, sendo ele o único a admitir a si mesmo que nada sabia e por isso o Oráculo de Delfos o denominou o homem mais sábio. Sócrates percebeu também que as pessoas gostavam da tragédia, mas não a entendiam, apenas a sentiam. Sócrates acreditava que através da razão, e somente da razão, se poderia chegar ao conhecimento seguro e que somente aquilo que fosse inteligível seria digno, nobre.


Surgiu na contemporaneidade de Sócrates as comédias áticas de Eurípedes, onde o impulso criador passa a ser consciente e o crítico dessa nova espécie de arte passa a ser o inconsciente, que apesar de tornar as peças inteligíveis, a fez perder o seu caráter purificador, deixou de ocorrer a catarse, criando um vazio enorme entre os espectadores com a morte da tragédia.


Com Sócrates surgiu a ciência, o racionalismo, do qual buscava entender e explicar o mundo e o homem. Com o desenvolvimento da ciência e da filosofia, esse racionalismo radical levou o homem ao niilismo, a negação total e pessimista da vida, num estágio de conhecimento avançado, do qual a própria razão se torna insuficiente para explicar o todo, mas é capaz de negar qualquer verdade, restando apenas o niilismo passivo e negativo.


Para Nietzsche a música, do seu até então amigo, Richard Wagner era uma renovação do espírito da música, uma espécie de música que se imortalizaria assim como Beethoven e Mozart. Para ele a música e o mito trágico era de igual maneira a expressão dionisíaca, que seria capaz de justificar o pior dos mundos e tornar a vida possível, cobrindo a verdadeira essência da vida com um véu de beleza. Segundo ele a verdadeira essência da vida é lastimável e toda projeção futura, não passa de ilusão espraiada na busca dos prazeres ou na atenuação das feridas da existência, da qual só podemos afirmar a vida com as ilusões. Ele defendia a idéia de que se deveria buscar o renascimento da tragédia, de uma arte superior da qual poderíamos suportar vida, e assim religar a ciência e a filosofia à afirmação da vida terrena. Assim se manteria a ciência e a filosofia trilhando o caminho do conhecimento, da verdade, mas sem negar a vida. Concluindo que, para ele, temos a arte para não morrer com a verdade, onde a vida sem a música seria um erro.



Dados bibliográficos:

NIETZSCHE, Friedrich, O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo - 1872. Notas, Tradução e Posfácio, Jacó Guinsburg, 1992.1º reimpressão, Editora Schwarcz - Ltda.

Friedrich Wilhelm Nietzsche (Röcken, 15 de Outubro de 1844 — Weimar, 25 de Agosto de 1900), formado em Filologia pela Universidade de Leipzig, escritor e crítico da filosofia.


(Resenha >> Alan Silva)

quarta-feira, 24 de março de 2010

Das virtudes

“São boas as virtudes de um homem não por causa dos resultados que podem ter para eles, mas em função dos resultados que podem ter para nós e a sociedade... Quando se possui uma virtude, uma autêntica e plena virtude, então se torna vítima dessa virtude. E é exatamente por isso que o vizinho a louva.”

(...)“O próximo louva o desinteresse porque é dele que tira vantagens! Se o próximo pensasse também de maneira “desinteressada” não haveria de querer essa diminuição de força, esse prejuízo de que tira o seu lucro! Trabalharia contra o nascimento dessas inclinações!” (...).

(Nietzsche, Gaia Ciencia - 21)

O Fanático da Desconfiança e sua Garantia

O Antigo: Queres tentar o impossível ensinando aos homens? Onde está sua garantia?

Pirro: Aqui está: quero pôr os homens de sobreaviso contra mim, quero confessar publicamente todos os defeitos de minha natureza e revelar aos olhos de todos meus envolvimentos, minhas contradições e minhas tolices. Não me escutem, lhes direi, antes que não me tenha tornado semelhante ao menor dentre vocês e até menor que ele; revoltem-se contra a verdade quanto puderem, por causa do desgosto que lhes causa seu defensor. Serei seu sedutor e seu impostor e ainda encontrarão em mim o menor brilho de consideração e dignidade.

O Antigo: Prometes demais, não consegue suportar esse fardo.

Pirro: Vou dizer também aos homens que sou muito fraco e que não posso manter o que prometi. Quanto maior for minha indignidade, tanto mais o vão desconfiar da verdade que sair da minha boca.

O Antigo: Queres, portanto, ensinar a desconfiança da verdade?

Pirro: Uma desconfiança tal que jamais existiu igual no mundo, a desconfiança a respeito de tudo e de todos. É o único caminho que leva à verdade. O olho direito não deve confiar no olho esquerdo e será necessário que, durante algum tempo, a luz se chame escuridão: é o caminho que se deve seguir. Não crês que te levará a árvores frutíferas e à sombra de salgueiros admiráveis? Encontrarás nesse caminho pequenas sementes duras – são as verdades; durante anos, deverás engolir mentiras em quantidade para não morrer de fome, embora saibas que é mentira. Mas essas pequenas sementes serão semeadas e enterradas no solo e talvez a colheita vai ocorrer um dia: ninguém tem o direito de prometê-la, a menos que seja fanático.

O Antigo: Amigo, amigo! Tuas palavras, elas próprias, são palavras de um fanático!

Pirro: Tens razão! Quero ser desconfiado a respeito de todas as palavras.

O Antigo: Então deves ficar calado.

Pirro: Vou dizer aos homens que devo ficar calado e que eles devem desconfiar do meu silêncio.

O Antigo: Renuncias, pois, a teu projeto?

Pirro: Pelo contrário – acabas de me indicar a porta por onde devo entrar.

O Antigo: Não sei realmente se ainda nos compreendemos perfeitamente.

Pirro: Provavelmente não.

O Antigo: Contanto que tu te compreendas bem a ti mesmo!

Pirro se volta rindo.

O Antigo: Ai! meu amigo! Calar-se e rir – será essa agora toda a tua filosofia?

Pirro: Não seria a pior.

(Nietzsche - O Viajante e sua Sombra)


Nota do tradutor:

Segundo uma nota do tradutor R. J. Hollingdale, esta conversa entre "Pirro" e "o velho" é calcada no diálogo Piton, escrito por Timão de Flionte, discípulo do fundador do cetismo filosófico, Pirro de Élis ( c. 365 -260 a.c)

domingo, 14 de março de 2010

Ética e Existência

Durante toda sua existência o homem se deparou com diversas problemáticas, algumas delas insolúveis até os dias atuais. Uma delas é a questão da ética e moral: em que se fundamentar um código de conduta ético e moral?

Na maioria das culturas os códigos éticos e morais são determinados por entidades transcedentes, geralmente deuses. Eles determinam o "bem e o mal" e resta ao homem como ser inferior e submisso segui-lo para sua salvação. Em algumas culturas há o chamado - determinismo. Uma força metafísica pre-determina todas as ações do homem.

Atualmente com a morte de Deus e dos deuses, surgiu a grande problemática: em que se fundamentar a moral? Como fazer uso da liberdade?

No mundo ocidental essa problemática surgiu no Renascimento, onde o homem passou a ser livre e responsável por si mesmo. Temos grandes exemplos do pensamento da época, como por exemplo Maquiável em seu "O Princípe". Nesta obra ele defende o egoísmo e individualismo, onde o "Eu" é soberano e que os fins justificam os meios na busca pela ordem. Temos Erasmo de Roterdam com sua obra "Elogio da Loucura" onde mostra com clareza a hipocrisia do homem civilizado e sua loucura disfarçada sob o véu dos bons costumes e na critica do racionalismo exacerbado. Não poderia esquecer do nosso "cavaleiro andante" o famoso Dom Quixote, que se espelha em outros para a construção de si próprio. Por fim temos Thomas More com sua obra "Utopia" em que idealiza a instituição perfeita para a vida em sociedade, baseada nos escritos platônicos de A Rupublica.

Temos aí exemplos, apesar de antigos, demasiado atuais. A crise de "humanidade", de "consciência" e crise de identidade, onde homem não sabe como se construir.

Outros mostraram como é egoísta e anti-democrática a natureza humana, como Hobbes e por fim o niilismo de François Sade, que percebe que não há meios onde se possa fundamentar uma moral universal. Houve Kant com seu "imperativo categórico": a sua maneira de agir deve ser a maneira de como gostaria que se tornasse lei universal. Porém o caráter subjetivo e imperativo a refuta. E por ultimo o "Genealogista" com seu martelo filosófico, Nietzsche, que viaja até os primordios da moral para descobrir sua origem, e percebe que este é um problema insoluvel, pois o homem está "Para além do Bem e do Mal" questionando qualquer metafísica e transcendencia, do qual se denomina amoral.

Com a morte dos deuses e da moral, quem nos guiará ao melhor caminho? Encerro a este encontro com uma bela citação do Nietzsche e quem sabe o que teremos para o próximo encontro?!

"... Mas de quando em quando - se admitirmos que existem benfeitores celestes além do Bem e do Mal - concedei-me, oh deuses, um olhar com que eu possa achar um ser absolutamente completo, feliz, poderoso, triunfante, no que ainda há algo a temer. Um homem que justifique o bem! Conceidei-me que ache uma felicidade que complete e salve o homem pelo qual se possa manter a fé no próprio homem... A má sorte da Europa com o medo ante o homem fez-nos perder também o amor que lhe devotávamos, a veneração que lhe tínhamos e a esperança que lhe consagrávamos. O aspecto do homem fatiga nos."

(Friedrich Nietzsche - A Genealogia da Moral)


Texto >> Alan Silva